Sobre a sedução da moda


A moda é uma grande indústria que emprega e gera renda para milhões de pessoas no mundo, sua efemeridade é sua principal característica. Graças ao desejo constante pelo belo e pelo novo a moda sobrevive como engrenagem importantíssima do consumo e do capitalismo. Palco desse espetáculo efêmero é o desfile, que surgiu como forma de apresentar às clientes importantes os modelos de um ateliê com Charles Worth, pai da alta costura. Desde então os desfiles sofreram uma revolução e se antes eram eventos destinados apenas às clientes, hoje o foco é principalmente na nata da Imprensa e o objetivo já não é apenas apresentar a nova coleção que estará nas lojas na próxima estação, a idéia agora é chocar e tornar sua marca um objeto de desejo, virar notícia e propor novas tendências.
Há tempos os desfiles deixaram de ser apenas uma vitrine e se tornaram um espetáculo a parte, músicos do momento, dança, tecnologia de ponta e cenários excêntricos são alguns dos muitos pontos que podemos citar. No desfile de primavera - verão 2012 da grife Chanel, subiu ao palco Florence Welch que cantou e encantou o público com música ao vivo. Alexander McQueen não precisava de muito, sua genialidade e sua excentricidade sempre dispensaram legendas, o debate entre moda e arte sempre existirá e Mcqueen sempre será citado nessas rodas de discussões como uma ponte entre ambos.
Um exemplo brasileiro que entrou para a história da moda no país foi em julho de 2004 com Jum Nakao, o estilista que infelizmente se despediu das passarelas do São Paulo Fashion Week chocou e levantou uma série de questionamentos que rondam o universo e o sistema da moda. Jum elaborou uma coleção inteira em papel vegetal, inspirado na suntuosidade do século XIX, ele abusou de um material incrivelmente barato e frágil para criar algo tão majestoso, ele cita que no processo de criação o objetivo era de que a folha deixasse de ser apenas papel e tomasse vida e tomou! Vestidos criados em papel milimetricamente dobrados, recortados, modelados, saias gigantescas com suas armações e suas barras cortadas à laser de maneira tão perfeita que seriam facilmente confundidas com as mais caras rendas, entraram na passarela cobrindo o corpo de fadinhas playmobil com seus olhares de contos de fada, como Jum mesmo diz. Se o desfile por fim, acabasse como qualquer outro, Jum já teria eternizado sua passagem pelo universo da moda, mas ele foi além, um mistério foi criado com luz e música, as modelos posicionadas para o público, tensão e então como num surto de consciência da efemeridade e do consumo exacerbado o trabalho todo foi destruído, pedaços e mais pedaços de papel caíram ao chão: “A destruição não era o fim era o começo” diz Jum Nakao ao vídeo-documentário sobre o processo de criação e o desfile, ele cita também que mesmo que as roupas fossem destruídas, se o trabalho fosse bem feito ele não teria fim, pois na memória das pessoas duraria para sempre. E durou, em formato de livro e DVD Jum narra toda a trajetória e todo o processo de criação com suas dificuldades e saídas, além disso, hoje em dia, o estilista participa de palestras no Brasil e no mundo contando sobre seu processo criativo como estilista e artista plástico.
Em um mundo em que tantos profissionais seguem uma “fórmula do sucesso” ou que obedecem à risca as tendências menos surpreendentes do mercado, o público sente falta de ser surpreendido, de ser seduzido, de arrepiar-se. Em resposta a pergunta: “O que um desfile tem que ter para ser memorável”, a Editora geral da revista  Elle, Susana Barbosa respondeu ao site ffw: “Tem que mostrar alguma coisa que você ainda não viu. É muito difícil. Para mim o conceito é o mais interessante, é o que engloba tudo, e poucos conseguem isso de verdade. Um designer como o Ronaldo Fraga sempre tem um trabalho de conceito muito bem amarrado, e você pode gostar ou não do resultado, mas ele tem ali um conceito, uma cara, um estilo e uma identidade. Tem que ter uma inteligência por trás do trabalho. Muitas vezes o que vemos é uma roupa preguiçosa que você veria em qualquer vitrine em qualquer shopping.”
As marcas que conseguem deixar clara a sua identidade e a sua originalidade, que levantam questões, que conseguem se diferenciar nesse universo tão sobrecarregado despertam mais facilmente o desejo de consumo no público, tornam-se imortalizadas como McQueen, entram para a história como Jum Nakao e ganham não só as páginas das principais noticias mas povoam o coração e a mente de milhares de pessoas que se identificam ou se emocionaram com o trabalhos desses profissionais, a marca então ganha uma outra dimensão, não só pela roupa em si mas por toda a história e significado que ela carrega.

3 comentários:

  1. Ooi querida,
    adorei o texto, a mais pura verdade.
    Parabéns pelo post, ótima maneira de começar um blog.
    Bjinhos

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  2. Amo falar de moda!
    e seu post foi incrivel!!
    ameii
    seja vem vinda!
    bjus

    http://cantinhodafranh.blogspot.com.br/

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  3. Adorei o texto! Sucesso com o blog! Beijos.

    http://tudo-p-meninas.blogspot.com.br/

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